A (In)dependência

(Rui Pereira, in Facebook, 24/08/2026, Revisão da Estátua)


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Quando Putin considerou a queda do sistema da URSS uma das grandes tragédias da segunda metade do século XX, a interpretação oficial-propagandista do Ocidente foi que o presidente russo estava a olhar melancolicamente o passado. A longa sombra do KGB na sua história de vida comunista turvava-lhe a visão do futuro. Este anunciava-se, aliás, radioso, com a História a ter acabado ali mesmo, entre 1989 e 1992. O júbilo pelo triunfo do capitalismo enchia, então, jornais, bibliotecas e academias.

Mas este “– Enfim sós” do universo do capital não era uma história de amor. Nem sequer um triunfo. Era apenas um desequilíbrio entre um passado parcialmente derrotado e um futuro igualmente derrotado que aproximaria a Humanidade do abismo como nunca até então.

Na senda pueril com que terminam os contos nos jardins-de-infância – “Vitória, vitória, acabou-se a História” -, os mais entusiastas do imenso salão de festas tristes em que se tornava o Ocidente confundiam tragicamente a complexa implosão do sistema soviético com um triunfo linear do sistema imperial do capitalismo.

O mundo galopava num apocalipse de autossatisfação vazia que se traduzia, em dois aspetos:

1) No seu hemisfério rico, a perspetiva de que as gerações seguintes iriam e irão viver materialmente pior do que as anteriores.

2) No seu hemisfério pobre a realidade da indústria da guerra de rapina imperial que iria, em escassas duas décadas, assassinar quatro milhões e meio de pessoas na sequência de conflitos liderados pelos Estados Unidos. Perto de um milhão foram vítimas diretas de ações militares contra países como o Afeganistão, Iraque, Paquistão, Síria, Iémen, Líbia e Somália. Os outros cerca de três milhões e meio encontrariam a morte por factores resultantes desses conflitos: crises económicas, falta de nutrição, destruição de estruturas sanitárias elementares. A tudo isto, 38 milhões de seres humanos sobreviveriam ou não numa transumância infinda em fuga permanente, sob o rótulo de “deslocados”: (ver, da Universidade de Brown o projeto Costs of War, aqui).

A epifania do capitalismo “verde” e a sua oratória de más-consciências e bons negócios, por outro lado, eram isso mesmo: má-consciência e “nicho de mercado” por explorar, como se tem visto. Portanto, como na anedota sarcástica da hiena, vale a pergunta: “… e ri de quê?”.

A questão consiste, porém, em saber quem ri? E a resposta leva-nos a uma nova classe de hiper-ricos cujo negócio, eufemisticamente designado por “globalização”, é apropriar-se do mundo em proveito próprio.

Ao mesmo tempo dedicam-se a construir bunkers e rotas visionárias de fuga para o espaço como quem imagina um novo bestiário de Noé, constituído por eles e pelos seus próximos, como animais únicos que se salvam da catástrofe que as suas políticas de acumulação de capital engendraram.

A fábula deste êxodo da superclasse tem como correspondente simbólico a tragédia do humano que, nos dias que correm, testemunhamos pela nova estética do holocausto concentracionário, telegenizado em Gaza. E, também, pelas desgarradas cerimónias que a propósito dos 35 anos de “independência” da Ucrânia assinalam como um sinistro baile de máscaras a instrumentalização e condenação do povo ucraniano numa guerra de atrito que custará um par de gerações de ucranianos, em nome de infligir uma “derrota estratégica à Rússia” (um projeto que já vem de 1946).

Num tempo em que faltam mísseis ao Ocidente e ucranianos à Ucrânia, a história bisonha deste regime é uma longa lista de acidentes de dependências neoimperiais.Das revoluções coloridas de 2003 e 2004, ao golpe de Maydan de 2014, passando pelo etnocídio confesso dos russófonos do Donbass perpetrado por Kiev, até ao ponto em que nos encontramos.

A Ucrânia não entrou para a NATO (entraria tanto quanto o México ou o Canadá entrariam noutro tempo para o Pacto de Varsóvia), mas a NATO entrou na Ucrânia, com as consequências que os sorrisos de plástico, os abracinhos e as televisivas palmadinhas nas costas do dia de hoje, procurarão, em vão, esconder.

Na novilíngua do dia, a Ucrânia celebrará ligada à máquina ocidental – na guerra, na sociedade, na economia, nas sobras do seu aparelho de Estado, nos escombros deixados pelas bombas russas e pelas bombas ocidentais -, 35 anos do que, a tudo isto, ouviremos grotescamente chamar “independência”.

5 pensamentos sobre “A (In)dependência

  1. E as ucranetes embandeiram em arco com os sucessivos ataques ucranianos a empresas de abastecimento da população civil garantindo que estão a ir a economia russa e ao bolso dos russos.
    Por isso preocupação com a Ucrânia podemos ter a certeza que esta gente não tem nenhuma.
    Querem simplesmente que continue o seu terrorismo não para ganhar mas para causar prejuízo.
    Esta e a mesma gente que condenou o levantamento do guetto de Gaza como se os palestinianos estivessem a viver muito bem sob o jugo israelita antes disso.
    Antes disso mais de 90 por cento da água que se bebia em Gaza nem para porcos servia e a comida chegava quando chegava. Netanyahu chegou a gabar se que tinha aquela população “a dieta”.
    Esta e a mesma gente onde um ex presidente portugues, então ainda em exercício, teve a pouca vergonha de dizer a um representante palestiniano, quando as bombas israelitas choviam sobre Gaza, “desta vez foram vocês que começaram”.
    Mas cairia o Carmo e a Trindade se alguem dissesse a um ucraniano “desta vez foram vocês que começaram” quando começaram a bombardear o Dombass tendo data marcada para o início de uma operação de expulsão estilo nakba.
    Por isso arrepia me que muita gente ache ter obrigacao de se mostrar muito condoído com a sorte desta geração de ucranianos para condenar esta guerra.
    Esta geração de ucranianos só não faz em toda a Rússia o que Israel fez em Gaza e Sul do Líbano porque não pode.
    Esta geração de ucranianos quer a destruição da Rússia custe o que custar.
    Esta geração de ucranianos não merece solidariedade nenhuma.
    Esta geração de palestinianos não tem culpa nenhuma que há 80 anos o mundo tenha achado por bem despejar lhes em cima uma cambada de supremacistas fanáticos sendo que boa parte deles nem sequer eram sobreviventes de campos de extermínio.
    Não tem culpa nenhuma que tenham dado a qualquer um que professe ser judeu direito a instalar se na sua terra.
    E ainda há entre eles quem, no meio do caos e da destruição, se preocupe em ensinar as crianças algo tão pacífico e humano como nadar no mar.
    Quem merece solidariedade não a tem e se há solidariedade e para os seus carrascos.
    Canalha que até pensou em atirar prisioneiros vivos a crocodilos do Nilo. Ou alguém pensou que bichos daqueles confinados num fosso iriam simplesmente servir de guardas letais em caso de tentativa de fuga?
    Quantos seriam “mortos ao tentar fugir” se um tribunal israelita não tivesse sido solidário com os crocodilos?
    Mas se calhar esta solidariedade terrorista tem lógica.
    Se estao solidários com gente que tem ideias destas, que so poderiam sair da cabeça daquele degenerado do Ben-Gvir nada mais normal que a sua solidariedade vá também para esta geração de nazis ucranianos.
    E que mesmo os que se opõem se sintam quase obrigados a considera los umas vítimas inocentes no meio disto tudo.
    Mas por mim são tão inocentes como foram os familiares dos oficiais das SS.
    Valha lhes um burro aos coices.

  2. A Rússia sempre soube que o nazismo ucraniano nunca morreu.
    Pelo que provavelmente quando Putin disse que a queda da União Soviética tinha sido uma tragédia estava a pensar certamente também na possibilidade de a Ucrânia ser usada contra a Rússia assim que esta conseguisse impedir o Ocidente de a pilhar impunemente.
    Como parte da União Soviética o nazismo ucraniano não estava morto mas estava domado.
    Quem se assumisse como nazi ganhava umas merecidas longas férias na cadeia, provavelmente no fundo da Siberia para ver se o frio lhe arejava as ideias.
    Claro que com a suposta independencia da Ucrânia o nazismo e o odio a Rússia cresceram até a Ucrânia estar mesmo pronta para ser usada como aríete contra a Rússia.
    Pena da actual geração ucraniana não tenho nenhuma.
    Se a gente que vendia crianças para “adoção” e mulheres para casas de putas quer agora vender se para fazer mal aos “pretos da neve” só teem aquilo que merecem se lhes correr mal.
    A minha solidariedade vai para os soldados e civis russos mortos pelos nazis hoje como há 80 anos foram mortos pelos nazis de Hitler.
    E o seu fanatismo demente que permite que esta guerra continue, que os russos continuem a morrer e que nos continuemos a pagar esta treta toda enquanto nos ameacam que se calhar não vai haver dinheiro para nos pagar reformas e os serviços públicos se degradam em todo o lado.
    O bom povo da Ucrânia só se revoltou quando Herr Zelensky destituiu um ministro da defesa homicida e terrorista, pretendendo que este substitua Herr Zelensky.
    Se querem mandar os seus filhos com menos de 25 anos e as suas mulheres que, muitas vezes por razões médicas, não teem filhos, para a frente de combate porque raio e que temos de ter pena de tal gente?
    São uns cambada de fanáticos reles e quem os apoia como os javardos que hoje foram a Kiev merecia que os russos os tivessem brindado com pelo menos um nutrido fogo de artifício.
    Raios partam a Ucrânia.

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